sábado, 18 de setembro de 2010

ONU aponta falhas no combate ao trabalho escravo no Brasil

O Estado de São Paulo
Estadão, 14.09.2010

Missão das Nações Unidas que veio ao País em maio constatou que a impunidade compromete resultados

Jamil Chade CORRESPONDENTE / GENEBRA - O Estado de S.Paulo

GENEBRA

A Organização das Nações Unidas adverte: a impunidade e o fracasso das políticas de reforma agrária estão perpetuando a escravidão no Brasil. Essas são algumas das conclusões de uma missão da ONU que veio ao País em maio para investigar o trabalho escravo.

O documento final da avaliação, publicado ontem em Genebra, também indica falhas graves na "lista negra" criada pelo governo com as empresas e indivíduos que tenham mantido trabalhadores como escravos. Até hoje, apenas uma pessoa dessa lista criada há sete anos foi presa. O documento ainda aponta o envolvimento de membros do governo em alguns crimes. A missão do Brasil em Genebra informou que o País dará hoje uma resposta oficial às críticas.

O relatório foi preparado por Gulnara Shahinian, especialista independente da ONU para o combate ao trabalho escravo. Os números de vítimas divergem. Em 2004, o governo falava em 25 mil vítimas.

Em 2008, a OIT estimou 40 mil. A ONU não acredita que houve aumento, mas o problema seria maior que o imaginado.

Para a ONU, a escravidão está ligada à pobreza e à falta de terras. "A pobreza é a raiz da escravidão. Sem terras, sem trabalho e sem ter como sustentar suas famílias, alguns trabalhadores se submetem à exploração", diz o documento. Maranhão, Piauí e Tocantins são os principais locais de origem de escravos. Quase metade vai para o Pará.

A constatação é que os programas sociais no Brasil e as operações de resgate não têm dado resultado diante da falta de uma estratégia para garantir a renda do trabalhador depois da liberdade. Segundo a ONU, usar o Bolsa-Família como mecanismo de prevenção não funciona.

A ONU também critica a lista criada pelo governo em 2003, apresentada como uma das principais soluções para o problema. Desde então, 449 empresas que usaram trabalho escravo fizeram parte da lista, sendo proibidas de receber dinheiro do BNDES ou empréstimos agrícolas. Em maio deste ano, havia 165 nomes.

Nenhum comentário: