24/08/2013 - 02h00
TATIANE RIBEIRO
ENVIADA ESPECIAL A BOTUCATU
TONI
SCIARRETTA
DE SÃO PAULO
Considerada a inimiga número um da indústria de transgênicos, a física e
ativista indiana Vandana Shiva afirma que há uma ditadura do alimento, onde
poucas e grandes corporações controlam toda a cadeia produtiva. E dá nome aos
bois: Nestlé, Cargil, Monsanto, Pepsico e Walmart.
"Essas empresas querem se apropriar da alimentação humana e da evolução das
sementes, que são um patrimônio da humanidade e resultado de milhões de anos de
evolução das espécies", diz.
Crítica feroz à biopirataria, Shiva ressalta que a única maneira de combater
o controle sobre a alimentação é o ativismo individual na hora de consumir
produtos mais saudáveis e de melhor qualidade.
Leia os principais trechos da exclusiva à
Folha durante o 3º Encontro
Internacional de Agroecologia, em Botucatu.
É possível alimentar o planeta sem usar transgênicos?
O único modo de alimentar o mundo é livrando-se das sementes transgênicas.
Essas sementes não produzem alimentos, mas produtos industrializados. Como isso
poderia ser a solução para fome? Só estão criando mais controle sobre as
sementes. Desde 1995, quando as corporações obtiveram o direito de controlar as
sementes, 284 mil fazendeiros cometeram suicídio na Índia. Nós perdemos 15
milhões de agricultores por causa de um design de produção agrária criado para
acabar com a agricultura familiar.
Como mudar a alimentação do modelo agroindustrial para outro baseado na
produção familiar e na distribuição local?
As pequenas fazendas produzem 80% dos alimentos comidos no mundo. As
indústrias produzem commodities. Apenas 10% dos grãos de milho e soja são
comidos por pessoas; o resto é 'comido' pelos carros, como biocombustíveis, e
por animais. É possível elevar esses 80% para 100% protegendo a biodiversidade,
a terra, os fazendeiros e a saúde pública. É apenas por meio da agroecologia que
a produtividade agrícola pode aumentar.
Como as grandes corporações dominam a cadeia mundial de alimentos?
Se você olha para as quatro faces que determinam nossa comida, são todas
controladas por grandes corporações. As sementes são controladas pela Monsanto
por meio dos transgênicos; o comércio internacional é controlado por cinco
empresas gigantes; o processamento é controlado por outras cinco, como a Nestlé
e a PepsiCo; e o varejo está nas mãos de gigantes como o Walmart, que gosta de
tirar o varejo dos pequenos comércios comunitários e com conexões muito diretas
entre os produtores de comida e os consumidores. São correntes longas e
invisíveis, onde 50% dos alimentos são perdidos.
Temos sim uma ditadura do alimento. A razão que eu viajei todo esse caminho
até o Brasil é porque eu sou totalmente a favor da liberdade alimentícia, porque
uma ditadura do alimento não é só uma ditadura. É o fim da vida.
Como as corporações chegaram a esse domínio?
Infelizmente, o chamado livre comércio trouxe a liberdade para as
corporações, mas não para as pessoas. As corporações estão escrevendo as regras
e se tornando os governantes.
Os direitos intelectuais acordados entre as organizações mundiais foram
escritos pela Monsanto. Para eles, o problema era que os fazendeiros estavam
guardando as sementes. E a solução que ofereceram foi dizer que guardar as
sementes agora é um crime de propriedade intelectual. É isso o que dizem as
regras da OMC. A Índia, o Brasil, a América Latina e a África deveriam dizer:
'Você não pode patentear a vida porque a vida não foi inventada. Pare com a
biopirataria'.
Até agora, a revisão dessas regras não foi permitida, o que mostra que essas
corporações ditam as regras. E não é apenas na OMC. A Monsanto escreveu o ato de
proteção para o orçamento nos EUA. O vice-presidente da Cargill foi designado
para escrever a lei de comércio e agricultura dos EUA.
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Fabio Braga-29.mai.2012/Folhapress |
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A ativista indiana Vandana Shiva, 59, que veio
ao Brasil para fazer palestras sobre temas da Rio+20 |
É possível modificar esse cenário?
A única maneira de reverter essa situação é cada pessoa fazer seu papel de
recuperar a liberdade e a democracia do alimento. Afinal, cada um de nós come
duas ou três vezes ao dia. E o que nós comemos decide quem somos, se nosso
cérebro está funcionando corretamente, ou nosso metabolismo está saudável ou, se
por conta de micronutrientes, estamos nos tornando obesos. Isso afeta todo
mundo: os mais pobres porque lhes foi negado o direito à comida; mas até os que
podem comer porque não estão comendo comida. Chamo isso de anticomida, porque a
comida deveria nos nutrir. A comida mortal que as corporações estão trazendo
para nós destrói a capacidade da comida de nos nutrir e no lugar disso está nos
causando doenças.
Cada um de nós deve se tornar um forte ativista da liberdade da comida e das
sementes no nosso dia a dia. O que significa que temos que apoiar mais os
fazendeiros e a agroecologia. Devemos ser comprometidos com a alimentação
saudável.
Qual a importância do Brasil nesse jogo?
O Brasil tem um papel muito importante. De um lado, está uma agricultura
altamente destrutiva e irresponsável, mantida pelas corporações, levando
transgênicos, produtos químicos e piorando a fome. Do outro lado, está o modelo
agroecológico, caracterizado pela diversidade, conhecimento popular, o melhor da
ciência, e levando efetivamente comida às pessoas. Essa disputa está ocorrendo
justamente aqui, no Brasil.
Provavelmente, o Brasil tem a maior proporção de diversidade de alimentos em
sua agricultura. No entanto, a maior parte não é usada para a alimentação
humana. Por exemplo, as plantações de cana-de-açúcar e soja vão para a
alimentação de animais e para fabricação de combustíveis.
O Brasil é parte do que eles chamam de Brics. Eu não gosto de 'tijolos'. Eu
prefiro plantas. Mas é um forte jogador na cena global, e os jogadores vão
decidir como os outros jogam.
Qual o papel da sociedade urbana em relação à agricultura familiar?
É muito feliz. Não porque eu acredito que as áreas urbanas têm mais riqueza e
mais poder, mas porque, por terem mais riqueza, têm mais responsabilidade. E
porque eles controlam a tomada de decisões, tanto em termos de governamentais
como a sua própria atitude em termos de consumo. Se eles mudassem sua postura de
consumo para longe das corporações, comprando, sim, alimentos dos pequenos
produtores, eles ajudariam não apenas o agricultor familiar, mas também
ajudariam a Terra e seus próprios corpos.
Recentemente o presidente da Nestlé afirmou que é necessário privatizar o
fornecimento da água. Quais as consequências desse processo?
Tudo que é essencial à vida desde o começo da história, em todas as culturas,
tem sido reconhecido como pertencente à sociedade. E isso inclui a semente,
porque a semente é a base da comida, inclui a água porque água é vida. E são
esses recursos que essas corporações gigantes querem enclausurar. Essas são as
novas inclusões comerciais. Assim como na Inglaterra, eles enclausuraram a
terra, e a tiraram dos camponeses para terem a revolução industrial.
Hoje, as corporações gigantes estão assumindo os bens comuns que são as
sementes, a biodiversidade, a água. Quando a Nestlé diz que é necessário
privatizar a água, eles estão, obviamente, pensando na necessidade de aumentar
os lucros deles. Eles não estão pensando na necessidade dos aquíferos de serem
sustentados e recarregados, porque corporações somente podem construir uma
economia extrativa. Se eles privatizam a água, eles vão somente tirar a água
para eles, o que significa que as comunidades locais são deixadas sem água.
Então é um assalto.
As Nações Unidas têm de reconhecer que o direito à água é um direito humano.
A Coca-Cola agora quer entrar no meu vale, um vale lindo no Himalaia, chamado
Dune Valey. Em maio nós iniciamos uma campanha porque a privatização da água por
essas empresas de engarrafamento significa, primeiro, que o direito universal à
água é destruído. O aquífero, que pertence a todos, está agora engarrafado numa
garrafa de 10 rupis que pode é acessível só aos ricos. Os pobres bebem apenas
água contaminada.
A segunda coisa é que ela destrói água, e eu não sei por quanto tempo essa
mineração poderá aguentar. A terceira é que ela polui. Sobram poucas fontes de
águas puras, e, se eles realmente se importassem, deveriam limpar o pouco que
sobra, ao invés de roubar o que resta limpo. Isto é roubo de água e, portanto,
um crime contra a humanidade.
Essa dependência da Coca-Cola é um dos vícios da vida moderna. Nós temos
muito mais bebidas saudáveis.
Na Índia, começamos uma campanha para as avós
ensinassem aos seus netos as bebidas geladas que elas costumavam fazer. Somos um
país tropical, sabemos como transformar qualquer fruta em uma bebida saborosa:
um suco de manga crua, que é ótimo para prevenir insolação, uma mistura
maravilhosa de sete grãos, que é como uma refeição completa e, se tomada no café
da manhã, você não precisa de mais nada. As bebidas venenosas que são vendidas
pela Nestlé e pela Coca-Cola roubam o nosso dinheiro, a nossa água e a nossa
cultura.
Qual é a forma alternativa à globalização?
Originalmente, o livre comércio deveria reconhecer a liberdade de todas as
espécies e por isso não destruiria nenhuma espécie nem ecossistema.
Originalmente, o livre comércio reconheceria os direitos dos camponeses e dos
povos indígenas e, por isso, não iria cortar as raízes. Reconheceria também os
direitos dos pequenos agricultores familiares e iria cuidar para que existam
preços justos, ao invés de tentar debilitar o preço por meio de dumping e
jogando fora os produtos.
Um verdadeiro livre comércio seria a liberdade para as pessoas e não a
liberdade para as corporações. O que nós temos agora é uma corporatização global
com uma negligência total, uma destruição negligente e desatenta. O que
precisamos é uma consciência livre que esteja profundamente ciente de nossa
interconexão com outras espécies, outras culturas e com toda a humanidade. Temos
que ser conscientes do dano que fazemos aos outros. Dessa forma, não vamos
incrementar o tamanho de nossa pisada ecológica, mas vamos a reduzi-la.
E, na alimentação, a única forma em que você pode reduzir sua pisada é de
mudar de agroindústria para agroecologia, mudar da distribuição global para
distribuição local, mudar de um sistema violento, que depende do governo
corporativo, para um sistema pacífico, que depende da comunidade e da
solidariedade. No momento em que mudamos para isso, a pisada se reduz. Podemos
ir do industrial e global para ecológico e local.
Como acelerar o processo de alinhamento entre os vários movimentos para um
estilo de vida mais sustentável?
Agroecologistas, camponeses e agricultores familiares são, na minha opinião,
os maiores, protetores do planeta. É o momento de os movimentos ecológicos
perceberem que os verdadeiros ambientalistas são os agricultores, que realmente
reconstroem o solo, que fazem o cultivo de uma forma que os besouros não sejam
mortos, que protegem a água.
E o movimento pela saúde tem que perceber que os agricultores são os médicos,
que fazer crescer comida saudável é a melhor contribuição que podemos fazer. No
momento em que fazemos essas conexões, existe uma nova vida, porque a vida
cresce por meio de inter-relações.