segunda-feira, 13 de julho de 2015

Barbárie nossa de cada dia: linchamentos e religiosidade



Wagner Francesco
Teólogo

Recentemente fui indagado sobre minha opiniões na internet. Pessoas que estranhavam que eu, num ambiente acadêmico extremamente secular e postando numa internet cada vez com pessoas mais descrentes, estivesse publicando textos falando de Jesus. Mas vamos aos fatos. Primeiro, se um teólogo não falar de Jesus sobre o que ele falará? Segundo, quem disse que vivemos num ambiente extremamente secular? Digo sem medo de erro: muito pelo contrário. Vivemos num ambiente religioso - e religioso até demais!

O brasileiro é religioso. Não sai de casa sem fazer o “sinal da cruz”, tem uma bíblia aberta (de preferência nos Salmos 23 ou 91) em sua casa e, claro, coloca adesivo no carro: “foi Deus quem me deu”. Sendo assim, é correto afirmar que somos um povo cordial e bondoso, bem ao estilo Jesus Cristo de ser. Correto? Errado! E vou explicar.

Veja que curioso: dados de 2012 mostravam que “o número de evangélicos aumentou 61% em 10 anos no Brasil”. E o resumo da história toda é:

Mesmo com o crescimento de evangélicos, o país ainda segue com maioria católica. Segundo o IBGE, o número de católicos foi de 123,3 milhões em 2010, cerca de 64,6% da população.

A religião no Brasil está em alta e os índices de violência também. Segundo o mapa da violência de 2014, em 2012, 112.709 pessoas morreram em situações de violência no país. O número equivale a 58,1 habitantes a cada grupo de 100 mil, e é o maior da série histórica do estudo, divulgado a cada dois anos.

Agora, me explique como pode um país de pessoas tão religiosas como o nosso ser tão violento? E como pode ser tão vingativo?

A notícia em pauta essa semana foi o linchamento de um rapaz acusado de tentar assaltar uma loja numa periferia no Maranhão. Pena por assalto? Segundo o Código Penal, varia entre 4 a 10 anos de prisão, mas, no caso do rapaz em questão, sem direito à ampla defesa ou contraditório, foi a pena de morte. E tudo isto, repito, num país que é majoritariamente religioso.

O Brasil, ainda, tem números assombrosos no que diz respeito aos linchamentos. Segundo pesquisa feita pelo sociólogo brasileiro José de Souza Martins em seu livro “Linchamentos: a justiça popular no Brasil”, um milhão de compatriotas participaram de linchamentos em 60 anos. Olhe, estes são números dos que participaram, mas imagine que você conhece alguém que publica em seu Facebook coisas como “bem feito”, “eu acho é pouco”, “bandido bom é bandido morto”, etc.

Eu, quando ouço sobre linchamentos, penso logo em Jesus. Vocês lembram do encontro que Jesus teve com uma mulher que iria ser apedrejada? Abaixo o texto transcrito:


Jesus, porém, foi para o Monte das Oliveiras. E pela manhã cedo tornou para o templo, e todo o povo vinha ter com ele, e, assentando-se, os ensinava. E os escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério; E, pondo-a no meio, disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi apanhada, no próprio ato, adulterando. E na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes? Isto diziam eles, tentando-o, para que tivessem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia com o dedo na terra. E, como insistissem, perguntando-lhe, endireitou-se, e disse-lhes: Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela. E, tornando a inclinar-se, escrevia na terra. Quando ouviram isto, redarguidos da consciência, saíram um a um, a começar pelos mais velhos até aos últimos; ficou só Jesus e a mulher que estava no meio. E, endireitando-se Jesus, e não vendo ninguém mais do que a mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? E ela disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais. João (8:1-11)

O adultério era crime, bem como roubar. A solução encontrada no Antigo Testamento, criada pela Lei Mosaica, era o apedrejamento de quem adulterasse (Levítico 20:10). O interessante é que na história em que Jesus participa ele desafia: “quem nunca pecou que atire a primeira pedra”. Por que isto? Porque Jesus, logo que viu a mulher, “sentiu a falta do homem”. Ora, se o adultério era punível de morte, cadê o homem? Por que trouxeram só a mulher? Não é demais imaginar que provavelmente o homem estivesse ali com pedras na mão também... Mas falar que “o primeiro sem pecado que jogue a pedra” foi uma forma muito inteligente de demonstrar que, ali, todo mundo tinha mãos sujas, passado que condena e razão também para ser punido. Ninguém é santo.

Ora, agora imagine que você vive numa sociedade imensamente religiosa, que lota igrejas – com um mercado gospel que rende muito com a venda de bíblias e bugigangas da fé – e que pratica e apoia o linchamento. Agora pense na barbárie: o indivíduo é acusado de roubo e alguém, bondoso, que pensa no bem da comunidade e da nação, o assassina.

Certamente, estes que praticam linchamentos são pessoas que costumam falar que “advogado é safado, pois defende bandido” ou que “odeiam os direitos humanos”, mas... e quando pesar sobre eles a cruz de uma ação penal? E quando começar a via crucis do tribunal do Júri? Neste momento, ninguém no mundo será mais bem vindo que um advogado, que garantirá os Direitos Humanos do cidadão: ampla defesa e contraditório. Isto é: garantir para o “sujeito justiceiro” o que ele achou que não devia ser garantido ao rapaz linchado.

Isto tudo é sintoma de uma sociedade doente, egoísta, que aprendeu a santificar bens e não a vida. Foi Marx quem disse que a desvalorização do mundo humano aumenta em proporção direta com a valorização do mundo das coisas – e ele não estava errado. Vivemos numa sociedade extremamente religiosa, mas distante do que Jesus falou. Ver um religioso apoiando a barbárie dos linchamentos e da pena de morte é muito bizarro porque o que vemos em Jesus é outra frase: ‘nem eu te condeno”.

Infelizmente notícias sobre linchamentos são cada vez mais constantes em nossa sociedade, e o temor – pelo menos meu! – é que se torne algo natural. Eu temo porque a banalização do mal nos faz perder a nossa capacidade de se revoltar com injustiças. Na verdade, a banalização do mal nos fazer cometer injustiças sobre o pretexto de fazer justiça.

Matar para fazer justiça é como jogar gasolina para apagar fogo: é estupidez. E que Deus nos livre dessas pessoas justas e boas.Wagner Francesco é Teólogo com pesquisa em áreas de Direito Penal e Processual Penal.

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